
FORMIGAS, QUINTAIS, PASSARINHOS. Um encontro entre Guzmán e Manoel de Barros
- 6 de fev.
- 4 min de leitura
EXT. DIA. QUINTAL DE MANOEL
Guzmán e Manoel de Barros conversam deitados em redes fincadas em árvores. É outono, o chão está cheio de folhas amareladas e o vento, vez ou outra, venta as folhas, fazendo fruuuuuuuuuuu. Vez ou outra, param a conversa pra ouvir um sanhaço irritado. Ou um sabiá inspirado.
Imaginei Manoel de Barros conversando com o documentarista Patricio Guzmán.
Dois artistas de quem tenho enorme admiração e que, vez ou outra, leio. No caso de Guzmán, leio o texto sobre átomos dramáticos, que faz parte dos textos iniciais do seu livro sobre documentário, “Filmar o que não se vê”.

Então… hoje, pensando em delicadezas, pensei neles. Imaginei Guzmán entrevistando Manoel. Ou melhor: os dois conversando no quintal, frases soltas atrapalhando grandes e importantes silêncios. Quem filmava era eu (mereço, porque essa cena eu que inventei, então invento do meu jeito).


Escrevi um texto sobre esse encontro. E sobre o hoje.
Manoel de Barros tinha um quintal. Guzmán tem uma câmera. Nós temos… o quê? Uma tela que vibra no bolso feito coração eletrônico pedindo atenção.
O Manoel passava horas olhando uma lesma cruzar a parede. Horas! Você consegue imaginar? A gente não consegue nem ver um vídeo de 3 minutos até o fim sem dar aquela checadinha se tem coisa melhor pipocando ali embaixo. Velocità, velocità.
Guzmán chama de átomos dramáticos. Manoel chamaria de… sei lá, “transfusão de insignificâncias”, “o ínfimo grandioso”, essas coisas que só ele sabia dizer. Mas os dois estão falando da mesma poesia: aquela mulher parada na calçada procurando a moeda perdida. Só que a gente perdeu o quintal, sabe?
Metaforicamente e literalmente. Quem pode ter o luxo de um quintal hoje? Pelo menos aqui no Rio, isso é pra lá de raro. É sonho.
Perdemos aquele tempo parado. No “quintal” — que seja metafórico. Aquele tempo de olhar a formiga carregando a folha e pensar: “Caramba, ela tá levando isso pra onde? Que história tem aí?”. O tempo da contemplação besta, da filosofia vagabunda, do tédio sagrado.
Hoje a gente tem é boleto. Notificação. Prazo. Preocupação em 4K pipocando na cabeça.

Manoel dizia que “no descomeço era o verbo. Só depois é que veio o delírio do verbo”. A gente tá no delírio total, véi. Delírio de informação, de produtividade, de conteúdo. Esquecemos o descomeço. Esquecemos de ver.
Os átomos do Guzmán continuam flutuando por aí: o motoboy que divide o lanche com o cachorro de rua, a velha regando a planta na janela, o sorriso de canto de boca de alguém que precisa ser simpático. Precisa. Eu, às vezes, preciso. E daí eu sou. E distribuo uns sorrisos por aí. “Maluquete”.

Manoel fazia poesia com lata, com sapo, com o nada.
O nada é tanto. Ando amando o nada. Acho que compreendo o nada hoje melhor do que antes. Devo estar amadurecendo, finalmente. Mas não vou deixar amadurecer demais, que isso não é bom. Eu sei como é.
Manoel diz que tinha mais grandeza nas coisinhas à-toa do que nas coisas importantes. E tá lá no “Livro sobre Nada” (que é tudo, na real): “O que não sei fazer desmancho em frases”.
Pois é. Tô achando que a gente tá desmanchando a vida em frases. Pior: em fragmentos de frases. Em hashtags. Em react. Em segundos mastigados que a gente cospe antes de engolir. Nem sente o gosto.
O documentarista pega as letras soltas (aqueles átomos) e faz palavras, frases, histórias. Faz poesia. Vê a beleza… sei lá… da poça. E filma. Filma a poça como quem filma o Cristo Redentor.
Veja a beleza da poça, moço e moça. Olha….
O poeta pega o cisco, o esquecido e o passarinho.
E nós? A gente pega a vida inteira e transforma em ansiedade.
Nunca tive, mas andei tendo. Logo eu, tão… tão… sei lá. Logo eu…
Tomei um Rivotril, não vou mentir. Porque ansiedade é horrível. Achei que ansiedade é medo em enxurrada.
Medo.
Queria o tempo da delicadeza. Aquele tempo manso, lerdo, “desimportante”. Mas não tem como. Já era. Tem boletos.
O Manoel tinha tempo pra ouvir o som que as árvores fazem crescendo (sim, ele disse que ouvia isso). A gente não tem tempo nem de ouvir o som da nossa própria respiração. Velocità, velocità — igual o Johnny, só que nosso barato é outro: é a dopamina do scroll infinito, a ilusão de que quanto mais rápido a gente vive, mais a gente vive.
Mentira.
Quanto mais rápido, menos.
Menos se vê.
E sem ver, não existe documentário.
Não existe poesia.
Não existe vida vivida, só vida que existe pra pagar boleto.
A gente precisa de mais máquinas que não funcionam. Mais tempos mortos. Mais vazios férteis. Mais delicadeza, menos velocità.
Porque, no fim, a vida não é feita dos grandes acontecimentos. É feita dos átomos. Daqueles ciscos. Daqueles nadas que o Manoel sabia que eram tudo.
E a gente sabe também. Só que não lembra.
Obs. 1 Hoje inventei um livro infinito (é só o nome dele; ele tem fim, acho. Espero).
Vou postar no meu Insta seu crescimento, pois ele será feito vagarosamente, por muitos dias, costurado com papéis desiguais, diferentes, com a linha que estiver disponível, numa costura que inventei especialmente para esse livro. (Não é livro — é encadernação.) É um livro cheio de cores e texturas, sem texto, pra ser preenchido por seu dono ou dona — vamos ver quem vai adotá-lo.
Escrito devagar, numa encadernação feita por mim. Na velocidade de quem olha formiga. Sem pressa. Como o Manoel gostaria. Como o Guzmán filmaria. Como a gente deveria viver.
@liberliberestudio



